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Por que o preço da gasolina caiu nas refinarias da Petrobras?

A CombusPro conversou com Amance Boutin, especialista de combustíveis da Argus.

Por CombusPro

A valorização do real frente ao dólar foi, provavelmente, a principal razão da redução do preço da gasolina anunciada pela Petrobras na última semana, de acordo com Amance Boutin, especialista de combustíveis da Argus.

Além de fatores internacionais, a queda também pode ser explicada pela competição com o principal concorrente da estatal no mercado doméstico, a Acelen, e com o etanol hidratado nas bombas, cuja disponibilidade aumenta com o avanço da safra da cana de açúcar do Centro-Sul.

Em entrevista à CombusPro, Boutin analisou a conjuntura do mercado de combustíveis.

CombusPro: Como você avalia a atual conjuntura de preços dos combustíveis?

Boutin: Os preços estão sendo especialmente pautados pelo consumo na China. Esperava-se uma reação da demanda chinesa mais pujante que a vista até o momento.

Em termos de oferta, a Opep+ [aliança entre os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e outras nações com grande produção] anunciou um corte adicional da produção, mas isso não compensou a limitada reação do consumo na China.

CombusPro: E quanto ao Brasil, onde a Petrobras mudou sua política de precificação de combustíveis?

Boutin: A Petrobras está mantendo um alto fator de utilização das refinarias, e ela precisa escoar essa oferta adicional de produtos. A companhia chegou a exportar gasolina no mês passado, por exemplo.

Nota do editor: As refinarias da Petrobras registraram, em maio, a marca de 95% no percentual de processamento, o melhor resultado mensal desde julho de 2015.

São muitos os sinais que apontam para essa oferta bem ampla do sistema Petrobras. Por exemplo, a Acelen [que opera a refinaria de Mataripe, na Bahia] e a Ream [em Manaus, operada pela Atem Distribuidora] baixaram os preços, tendo em vista que a Petrobras é price maker no Brasil.

CombusPro: Isso mesmo se considerando que as refinarias não foram originalmente projetadas para competirem entre si?

Boutin: Ainda assim, se elas não baixam os preços, vão acabar perdendo participação de mercado, pois as distribuidoras que têm base no norte e no sul da Bahia, por exemplo, poderão comprar nas bases da Petrobras de Ipojuca [em Pernambuco] e de Betim [Minas Gerais]

O contrário também pode acontecer: antes do último reajuste [do preço da gasolina] da Petrobras, começou a aparecer produto da Acelen em Goiás, por exemplo.

CombusPro: O caso da Ream é mais complexo, dada a questão logística, certo?

Boutin: A Ream tem uma posição muito dominante, pois eles ditam preços por conta das distâncias. O norte do país não está tão integrado às malhas rodoviária e ferroviária, é muito dependente das hidrovias, e o custo de pilotagem das barcaças é alto. Além disso, o mercado do norte é relativamente pequeno. A Ream está, inclusive, levando produtos para o Nordeste. A Atem já fez também operações com diesel em Paranaguá [no Paraná].

CombusPro: Como vai o mercado de etanol?

Boutin: A produção e consumo de anidro [etanol que é misturado à gasolina] é bem maior que a do hidratado. A demanda de hidratado estava melhorando até a Petrobras fazer o último reajuste da gasolina. A paridade [quando vale a pena usar etanol hidratado em vez de gasolina] está melhorando nos estados produtores, como Mato Grosso e São Paulo.

CombusPro: Em março, o governo federal aprovou o aumento da mistura do biodiesel no diesel de 10% para 12%. Quais os impactos no setor?

Boutin: O governo deu um aceno muito forte para o setor, dando espaço para aumento da mistura para B12, e o plano é que haja um ponto percentual de alta por ano.

Isso foi possibilitado pelo recuo das cotações do óleo de soja e pela melhora do real frente ao dólar.

Hoje, nas negociações de contratos de biodiesel, o diferencial frente ao óleo de soja está aumentando, pois há usinas que estão com dificuldades em função da monofasia do ICMS. O produtor de biodiesel vende um biocombustível, mas, em paralelo, está inserido em uma realidade fiscal diferente, que é a da compra de insumos, como óleo de soja, que segue dentro do modelo anterior. Então, isso pode criar um descompasso entre as compras e vendas sob regimes tributários distintos. Isso é um problema para usinas que não estão integradas. Por isso mesmo, recentemente, a Be8 [antiga BSBios] e a Potencial anunciaram investimento para construir uma unidade para produzir óleo de soja.

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